Caros tripulantes: a previsão era de mau tempo chegando na quarta feira, 29/julho. Foi amplamente divulgado por todos os meios de comunicação, mas mesmo assim muitos não acreditaram ou não se preocuparam ou pensavam que eram superiores a isso.
Essa arrogância tem sido recorrente principalmente no que diz respeito à afronta aos eventos da natureza e seus avisos. Era certo que viria uma pancadaria pois já tinha atingido o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Iguape, Cananéia, Santos e subindo....
O dia no Itaguá era normal. Lanchas zarpavam, escunas idem, fretados saíam para pescar, pesqueiros também e até alguns veleiros.....Os alertas no celular começavam a pipocar.
Lá fui eu para o Lampejo acompanhar a porranca que se avizinhava. !4h já estava embarcado e mal o taxiboat me deixou no barco, o show começou!! Só deu tempo de abrir a cabine e eu já não parava mais em pé. O céu que era azul se tornou negro e assustador. Eu mesmo já me punia mentalmente por não ter vindo antes, mas o taxiboat ficou fazendo hora pra me levar, pois eu cheguei na praia 13:20h....
Enfim, não consegui me preparar de acordo. Deu tempo de vestir o colete, me clipar no barco e ficar sendo jogado de um lado para o outro tal a violência do vento SW e do mar. Esses vídeos consegui fazer quando deu uma acalmada.
Decidi ficar no cockpit , então fechei a entrada da gaiúta, celular dentro de um 'case', uma garrafa de água, uma faca de mergulho para cortar o cabo que me prende à poita e o croque rígido se precisasse afastar alguma embarcação que escapasse. O Sudoeste entra no Itaguá pelo canto do rio Acaraú e em tese é menos agressivo que o vento Leste pra nós, mas mesmo assim levantou onda de 1 metro e fez um inferno ali.
Um pesqueiro com seus ' tangones' arrastou com poita e tudo e foi pra cima do barco francês do Simon, os dois foram se afastando em direção ao mar até que se desenrolaram, mas com sérios prejuízos ao veleiro de aço. Lanchas escaparam e escunas também, mas nenhum perto do Lampejo. As pessoas me perguntam porque fico a bordo nessas ocasiões, mas é melhor vivenciar isso e tentar resolver do que chegar no dia seguinte e ver o resultado....
Depois de uma hora deu uma acalmada e só então consegui abrir o paiol e preparar uma segunda âncora no cockpit.
O que faço nessas situações: coloco meu flutuador, me prendo no barco com o arnês (cabo amarelo que aparece na foto), ligo o motor e deixo funcionando por uns 10' e depois desligo e deixo a chave numa bolsinha. Pego o ferro reserva, prendo a amarra no cunho de proa e deixo ele pronto para ser 'jogado' na água . Dessa forma não preciso ir na proa soltar a âncora principal. O problema dessa vez é que não deu tempo de nada... ou quase nada.
No auge da pancadaria escutei um barulho, um estampido forte. Pensei que alguma coisa tinha batido no casco. Não dava pra ir na proa senão cairia no mar mesmo usando o arnês. Entrei na cabine e chequei todos os paineiros e nada, Não havia água no porão. Excelente!! Só mais tarde quando pararam as rajadas mais fortes fui até a proa e para minha surpresa um dos cabos (espias ou mãozinhas) simplesmente estourou. Nunca havia visto isso com amarra de âncora. Já vi acontecer com cabos náuticos.... Rapidamente abri o paiol e peguei uma mãozinha nova, zero km ou zero milhas náuticas para substituir.
Aprendi que no mar quem tem 2 só tem um e quem tem 1 não tem nada....Sempre deixei 2 mãozinhas passadas na alça da boia. 'Just in case'.
Tudo bem.....eu tinha duas amarras passando lá, mas se tivesse só uma o barco estaria solto. As notícias iam chegando pelo celular e em Ilhabela foi pior que em Ubatuba. Muitos barcos foram parar nas pedras, afundaram, se perderam. As imagens eram muito tristes. No Itaguá as viaturas de resgate vinham para atender aos chamados.
Um dos mais graves foi uma lancha que saiu lotada com 11 pessoas a bordo e que naufragou no través de Itamambuca em razão do mar ter crescido até as ondas embarcarem e virar a lancha. Todos já vestiam seus coletes e a ajuda de outras embarcações que foram resgatar as pessoas na água foi imprescindível, inclusive 2 crianças que chegaram em estado grave ao PS Sta.Casa.
Não faz muito tempo morreram um experiente capitão (conhecido meu) e mais dois tripulantes num fretado que virou de noite próximo à laje do Patieiro. Saíram em 5 e voltaram só dois sobreviventes....Havia aviso de mar grosso emitido pela Marinha.
O pessoal vende o passeio, sabe do mau tempo, mas vai mesmo assim. O marinheiro vai se acostumando, uma, duas, inúmeras vezes driblando o mar, mas basta uma dar errado......excesso de confiança, ganância, arrogância, irresponsabilidade..... na minha opinião um pouco de cada.
A noite chegou e com ela o vento quente de NW forte de uns 15 kt que para nossa ancoragem é o pior juntamente com a Lestada, porque se o barco soltar da poita vai direto pra encosta nas pedras. Diante de tanta tragédia que chegava no celular, me conformei e sabia que ficaria a noite inteira acordado monitorando o Lampejo e principamente os outros barcos. Fui desmaiar 4 h da madrugada e acordei 7 h com sol quente, mar liso, ventinho da manhã e muitos peixes pulando ao redor do barco.
Ter barco na poita significa não dormir nunca mais.... como fazemos com os filhos adolescentes ou adultos.
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| Ainda bem que passo 2 desse na alça da boia.Senão.... |
Marinheiro bom não sai em mar ruim. Há quem discorde....
Esse é um 'post' que preferia não ter feito.

























